Formação acadêmica e prática profissional

Há 50 anos – desde a fundação da Associação Nacional de História – a comunidade acadêmica de historiadores vive, sofre e tenta resolver um de seus mais graves dilemas identitários, que tem a ver com uma questão aparentemente simples: o que faz um historiador?

A ambiguidade se torna mais clara se levarmos em conta que, à época de sua fundação (em 1961, em Marília, SP) esta entidade chamava-se Associação Nacional dos Professores Universitários de História, daí a sigla até hoje vigente de ANPUH.

À época da criação da ANPUH os cursos superiores de formação em áreas distintas começavam a se difundir e se segmentar de maneira em que opunham à formação técnica, a formação do professor. Tal segmentação no processo formativo consagrava uma percepção que supunha a existências de carreiras distintas, embora associadas a uma mesma área.

Nas universidades brasileiras, boa parte da oposição entre Bacharelado e Licenciatura respondeu às exigências de um mercado em expansão e desejoso por profissionais qualificados, de preferência em prazos curtos. Essa tendência, que se fez presentes em diversas reformas educacionais, “enxugou” os currículos, com a priorização inequívoca dos componentes humanistas que até então eram administrados em quase todos os cursos e áreas. Filosofia e Sociologia, ou mesmo Antropologia e História cederam espaço para o ensino de técnicas, metodologias e processos produtivos.

Esse mesmo movimento chega forte hoje tanto ao ensino médio, quanto à Pós-Graduação, com a implementação dos cursos profissionalizantes, em ambos os casos.

Ainda à época da fundação da ANPUH, a formação profissional em História enfatizava, como ainda hoje, a preparação para a docência, enquanto o surgimento do historiador se fazia pela prática da pesquisa e da escrita, quase sempre fora e além do ensino universitário. O título de Historiador era dado, frequentemente,  àqueles que, professores de história ou não, enfrentavam o desafio da construção do conhecimento, produzindo artigos e livros sobre o campo temático.

Não é preciso dizer que havia, como me parece que ainda há, muita tensão entre a produção exarada dos chamados “historiadores” (incluindo-se ai e sobremaneira os congregados em torno dos Institutos Históricos) e aquela produzida nas universidades e centros de pesquisa.

Nem sempre a História Acadêmica levou a melhor nesse enfrentamento, já que o mercado editorial brasileiro e o próprio ensino escolar de História deram e dão acentuada importância à vulgata historiográfica, produzida em sua maior parte por jornalistas e juristas. Em que pese a existência de escritores (jornalistas, juristas e outros) que se fizeram grandes historiadores, com obras consagradas e emblemáticas (Caio Prado Jr me parece um exemplo), na maior parte das vezes, infelizmente, essa produção alia amadorismo e superficialidade, além de demonstrar um desconhecimento e/ou desprezo pela produção acadêmica, já bastante adensada em diversas temáticas e áreas.

A vulgata historiográfica, em boa medida, despreza também as profundas inflexões teóricas e renovações metodológicas havidas na nossa área desde o século XIX. Suponho que seja quase que exclusivamente pela ação do mercado editorial e da grande mídia (televisão, jornal cinema) que o positivismo histórico sobrevive com força em nosso país, enraizando uma cultura histórica que o ensino universitário de história já superou há mais de um século.

Esse não é, todavia, um problema brasileiro. Vejamos o que registram Jean Boutier e Dominique Julia para o caso francês, onde a história acadêmica goza de grande prestígio editorial e se vê consagrada internacionalmente:

A História [atualmente] tende a se tornar um patrimônio comum. Por conseguinte, todo mundo pode tornar-se historiador, de sua família, de sua cidadezinha, de sua região, de sua disciplina… Alguns mesmo… se erigem pura e simplesmente em historiadores. Donde um risco, claramente denunciado por Pierre Vilar: no “comércio da história”, as “marcas […] estão muito mal protegidas. Qualquer um pode se dizer historiador. […] Contudo, nada mais difícil e raro do que ser historiador…”. [1]

Quero crer que uma parte desse problema está no fato das universidades brasileiras terem aceitado e incorporado sem muitos questionamentos a dicotomia ensino/pesquisa e ter, por consequência, supervalorizado as licenciaturas, incutindo de tal forma no alunado a idéia de que ele deve ser preparado para um mercado efetivo (docência), que os próprios alunos acham perda de tempo estudar técnicas e métodos de pesquisa, ou mesmo serem cobrados da construção de monografias em cursos de licenciatura.

Por outro lado, a alternativa do binômio Licenciatura/Bacharelado sempre pareceu à comunidades de historiadores um paliativo, já que a categoria defende que os cursos de formação superior em História formem o profissional de história e não o professor, de um lado, ou o historiador, do outro.

O debate se arrasta, mas a crítica à essa segmentação tem ganhado corpo e propostas integradoras se presentificam com maior vigor. A prova disso é a abertura sinalizada no Projeto de Lei 368/2009 do Senado Federal, que busca regulamentar a Profissão do Historiador.

Fruto de intensa negociado com a ANPUH (que a ele faz algumas críticas, entretanto) o projeto argumenta que:

O campo de atuação do historiador não tem se restringido mais à sala de aula, tradicional reduto desse profissional. Sua presença é cada vez mais requisitada não só por entidades de apoio à cultura, para desenvolver atividades e cooperar, juntamente com profissionais de outras áreas, no resgate e na preservação do nosso patrimônio histórico, mas também por estabelecimentos industriais, comerciais, de serviço e de produção artística. 

Daí por que, no artigo Art. 4º do referido projeto, seja delineado o conjunto de atribuições específicas dos Historiadores:

São atribuições do Historiador:

I – magistério da disciplina de História nos estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior.

II – organização de informações para publicações, exposições e eventos em empresas, museus, editoras, produtoras de vídeo e de CD-ROM, ou emissoras de Televisão, sobre temas de História; 

III – planejamento, organização, implantação e direção de serviços de pesquisa histórica;

IV – assessoramento, organização, implantação e direção de serviços de documentação e informação histórica;

V – assessoramento voltado à avaliação e seleção de documentos, para fins de preservação;

VI – elaboração de pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos.

Outro ponto nodal que gostaria de refletir, diz respeito à padronização e pasteurização dos conteúdos curriculares, que amarram o processo de formação a uma lista infinita de temas, áreas, tópicos e itens e, ao assim proceder, passam, na prática, por cima da autonomia universitária.

Assim, os currículos dos Cursos de História tendem a ser não apenas longos, mas também enfadonhos, já que, em geral, desprezam o contexto e as problemáticas específicas nos quais estão inseridos. Por mais que nos pareça interessante, a abertura de disciplinas em áreas como História & Meio Ambiente ou História dos Povos Indígenas, acabam por sobrecarregar ainda mais o currículo. Assim, inovações mínimas acabam sendo um fardo para alunos e um problema a mais para os gestores acadêmicos.

A padronização dos conteúdos curriculares reforça muitas vezes um caráter alienante que volta e meia se atribui ao ensino universitário e ao de história em particular. Não bastasse isso, o Estado e as forças sociais mais organizadas da sociedade, frequentemente reorientam os currículos para temáticas que dizem muito pouco respeito às nossas vivências e interesses. A obrigatoriedade de apreender conteúdos em História da Antiguidade, Medieval, Moderna, Contemporânea, do Brasil, da América, da África, etc, impede que os alunos montem seus próprios currículos e definam uma estratégia própria para sua própria formação, priorizando conteúdos técnicos ou pedagógicos, campos temáticos e abordagens teóricas e metodológicas. Dessa forma, a História ensinada continua a ser uma história alheia aos alunos, que nela são se reconhecem e, dessa forma, também não a valorizam.

Não bastasse as interferências por meio da imposição de reformas e diretrizes curriculares, fazendo das grades dos cursos de história verdadeiras tábuas de pirulito, há outras mais inusitadas: Recentemente a prefeitura de Manaus, cidade que está chegando hoje à casa dos 2 milhões de habitantes, excluiu do currículo de História todos os conteúdos de história regional e reduziu (pela enésima vez) a carga horária da disciplina, sem seque sequer dar satisfação. Quando pressionado, argumentou a necessidade de enxugar a folha de pagamentos. Com efeito, parte dos professores de história do município teve seus contratos sumariamente encerrados.

No Brasil é praxe fazer reforma de conteúdos do ensino sacrificando disciplinas como a História. Assim, a necessidade de ampliar a formação técnica, ampliou as cargas horárias de disciplinas como a matemática, física e química, em sacrifício das de História (a geografia sempre vai de roldão também!); conteúdos voltados para a formação de uma consciência cidadã (embora importantes) são também debitados na conta do professor de História. Agora, em Manaus (e isso é apenas um exemplo) até reforma administrativa se faz as nossas custas.

O bombardeio às histórias ditas regionais (se é que existe mesmo uma história regional?) sempre foi forte em áreas como a Amazônia por força dos indisfarçáveis preconceitos, que desqualificam e desprezam a região, seus habitantes e sua história.

Mas essa realidade regional é filtro vital de nossa construção identitária, através da qual podemos nos conhecer melhor e também ver o mundo melhor. Não há, nem deveria haver, incompatibilidade ou hierarquias entre universalização e localismo. Como dizia Alberto Caieiro, um heterónimo de Fernando Pessoa,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura…

Penso que uma das saídas para o dilema de nossa frágil formação passa pela estruturação de um currículo aberto às múltiplas competências da ação do profissional de História (onde a docência e a pesquisa serão apenas parte do todo e não o todo), que enfatize as vivências do aluno e que o permita interferir na construção do seu destino profissional.


[1] Boutier, Jean e Julia, Dominique (Orgs.). Passados Recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ/ Editora da FGV, 1998, p. 33.