Imaginem a cena:
Chuva torrencial derramando metade da água doce do planeta sobre Manaus, e decido sair de casa a qualquer custo.
Na porta do prédio, deparo-me com o óbvio: tudo alagado. Não há como chegar ao carro estacionado sem mergulhar os pés e pernas em 20 cm de água e tomar um dos maiores banhos de chuva de toda minha vida.
Teimoso, decido improvisar!
Voltei ao apartamento, vesti uma capa translúcida (leitosa) e, com dois sacos de lixo verdes, cobri sapatos e pernas da calça. Desci três lances de escada com a esperança de não encontrar vizinho algum pelos corredores.
Na porta do prédio de novo, mal dei dois passos para enfrentar a tormenta é um grito, insistentemente repetido, me força a olhar.
⁃ Ei, ei, ei!
⁃
Um menino franzino, de não mais que cinco ou seis anos, gritava da varanda telada do 2o andar. Disse-me algo que não entendi. Acenei com a mão e tentei seguir adiante.
⁃ Ei, ei, ei!
Bradou novamente e com mais vigor. Parei e voltei-me à ele novamente.
⁃ Tu é do bem ou do mal ?
Só então percebi que para aquela crianças, cuja mente aberta à imaginação, lhe permitia mesclar o visível e o invisível, o sonho e a realidade, eu não passava de uma criatura enigmática. Um espantalho, talvez, ou um personagem da ficção, quem sabe um X-Man, com algum poder secreto que me habilitasse a salvar o mundo.
Entre risos, só consegui responder: “do bem… eu acho”, e segui meu caminho, com a certeza de que, com aquela intervenção singela, ganhara meu dia.
Levei comigo meu segredo: o de ser incomensuravelmente humano e viver a vida, dia a dia, como um simples mortal. Mas isso ele não precisa saber. Pelo menos, não por agora.
