Com Lula!

Respeito muito quem pensa o contrário, à direita (mais obviamente) e à esquerda, mas desenvolvi ao longo de minha vida uma admiração incomensurável por Lula, e isso só tem aumentado, desde que, em nome do respeito as instituições democráticas, ele deixou o poder, rechaçando a ideia de um terceiro mandato, que tanto animou muitos de seus correligionários. Se pendor ao arbítrio tivesse, seus 87% de aprovação popular no fim do mandato, podiam lhe garantir a façanha.

Pessoas que desconheço, mas que invadem o espaço (público das redes sociais) com suas vociferações de ódio; amigos e colegas de militância no campo da esquerda; irmãos, primos e outros parentes por quem tenho carinho especial, além de alguns alunos, frequentemente direcionam suas críticas à Lula (assim como ao PT, à Dilma e “às esquerdas”), acusando-o de erros, culpas e crimes, que vão desde a conivência/tolerância com os preceitos neoliberais, com o capital financeiro e com os conglomerados de mídia – coisa que ele mesmo reconheceu ontem (26/04/2019) -, até o agenciamento de esquemas de corrupção que, em consequência, o teriam levado ao enriquecimento por meio de saques às estatais (Petrobrás, etc) e ao patrimônio público.

Muitas das críticas, em especial as que, vindas do campo da esquerda denunciam ações tíbias (ou mesmo nocivas) de seu governo contra os povos indígenas ou com relação ao processo de demarcação de terras – nunca engoli Kátia Abreu, por ex! -, sempre foram bem acolhidas por mim, concordando com elas no essencial. Penso que o apoio ao governo Lula, assim como todo apoio que se possa dar a qualquer governo, nunca pode ser incondicional e acrítico, sob pena da perda total da capacidade de análise conjuntural, vital para a proposição de caminhos em direção ao modelo de Estado e de sociedade que queremos.

Com relação às críticas vindas do espectro conservador, em que a extrema direita vem ganhando (e ganhou) projeções inimagináveis e verdadeiramente atemorizadoras, tenho direcionado de forma incisiva minha modesta militância cotidiana que, tenho consciência, não alcança mais do que umas poucas centenas de pessoas. Mas mesmo neste plano, tenho buscado me ater ao fundamental – reforma da previdência, retirada de direitos dos trabalhadores, dilapidação do patrimônio nacional e perda da soberania -, afastando-me cada vez mais, e evitando montar palco para as sandices vomitadas cotidianamente, venham de bolsomínios, de Olavo de Carvalho, Damares, Ernesto Araújo ou da própria gangue familiar de milicianos que se instalou no poder.

Não vou dizer que nada me incomoda nas críticas à Lula, pois estaria mentindo. Me incomodo não com a crítica que vem de pessoas progressistas à Lula, mesmo quando ela se faz – continua a ser feita ainda hoje – em meio à sua esdrúxula condenação, mas com o silêncio – profundo e abissal em alguns casos -, pelas mesmas pessoas, aos atores centrais do processo de fechamento político que tem causado o enraizamento do fascismo em muitas instituições do Estado e seu avanço no meio social.

Já tive, inclusive, o desprazer de ler em páginas de pessoas próximas e queridas, que a culpa do avanço da direita no Brasil se devia exclusivamente “ao governo corrupto de Lula e do PT”. Com igual desprazer, vi algumas dessas pessoas, projetando-se e projetadas como lideranças históricas da esquerda amazonense, entrarem nas salas de aula da universidade para pedir votos, primeiro à José Serra e depois à Aécio. Olhando as postagens dos que atuam nas redes sociais, percebo com igual espanto que jamais mencionaram qualquer coisa contra o PSDB, Aécio, Cunha, Moro, Temer ou mesmo Bolsonaro.

Frente a essas pessoas silencio por dois motivos, sendo o primeiro a plena consciência de que, não sendo melhor que ninguém, também erro e me equívoco em posições e avaliações. Em segundo lugar, silêncio em respeito tanto às suas histórias de vida, suas muitas contribuições políticas no passado, suas boas e úteis reflexões sobre outros temas e questões e também pelas relações pessoais que mantemos. Mas realmente não vejo como o tipo de postura que têm assumido nos permite, no aqui e no agora, fazer avançar as causas democráticas e reverter a desastrosa situação em que o país se encontra.

Permaneço fiel à minhas convicções e à Lula, devotando-lhe cada vez mais a admiração e respeito que passei a ter desde os meus vinte e poucos anos. Tenho um sentimento bobo de alegria em saber que temos o mesmo nome – Luís – e guardo até hoje com carinho o autógrafo que me deu – errando e rasurando esse nome (Balkar) esquisito -, durante um de seus comícios pelas “Diretas Já” em Manaus.

Ontem finalmente, depois de mais de um ano de sua kafkiana prisão e da censura que lhe impuseram os covardes algozes da democracia brasileira, sua voz poderosa, lúcida e corajosa ecoou novamente na entrevista que deu a El País e à “Falha” de São Paulo. Preciso confessar que ainda não tive condições emocionais de assistir a íntegra da sua fala, limitando-me a ver e ouvir, propositadamente, trechos curtos, mas verdadeiramente impactantes.

Como ele, também acreditei e sonhei que o Brasil caminhava para ser grande e um exemplo para o mundo, não apenas em termos econômicos e políticos, mas também, e sobretudo, pelo combate à fome e à miséria, pelo respeito a diversidade e pelo esforço de ampliar os processos de inclusão social.

Também como ele, choro e sofro pelo que estão fazendo ao país e nosso povo.

Vou vê-lo e ouvi-lo, certamente, mas não agora.

Tenho dificuldades de vê-lo na condição absurda em que foi colocado. Seus cabelos, brancos, frágeis e em desalinho; o corpo franzino dos que definham, maltratados por dentro e por fora; a fala embargada pela sensação de impotência, tudo isso me deixa mal, fisicamente mal, emocionalmente em frangalhos.

Lula é um gigante e o Brasil precisa dele. Sua liberdade é imperiosa e urgente.

Por isso, fico com Lula!

#LulaLivre!