Pensando o Desastre Bolsonaro

Sei que não sou o único a achar difícil entender o que está acontecendo hoje no Brasil. Uma das razões dessa incompreensão é a radicalidade com que mudanças estruturais têm sido não apenas propostas, mas aprovadas a toque de caixa, lançando trabalhadores, segmentos médios e pobres (urbanos e rurais) numa queda espiral de arrocho salarial, precarização, desemprego e miséria, em associação à retirada de direitos que haviam sido conquistados em lutas que duraram décadas e envolveram muitas gerações. E isso tudo sem falar no ataque sistemático e insano à minorias de toda ordem: índios, negros, LGBTQ’s, mulheres.

Tenho visto pelas redes sociais análises diversas, a indicar processos formadores e a apontar culpados pelo que temos nos tornado. Antes de ir adiante, duas ressalvas são necessárias e preciso assumir que tenho plena consciência delas. A primeira, bem óbvia, é a que as redes sociais, em que pese suas importâncias, nem de longe são o melhor espaço para buscar os esclarecimentos necessários, de resto mais plurais e complexos, trazidos à tona por competentes especialistas. É certo também que excertos de entrevistas e posicionamentos de muitos destes especialistas – Manuel Castells, Thomas Piketty, Noan Chomky, Boaventura Souza Santos, dentre outros – chegam também às redes sociais, mas é difícil avaliar com precisão o impacto que nelas produzem.

A outra ressalva, mais óbvia ainda, é a de que minha própria fala aqui nada mais é que mera opinião, sem pretensões de rigor e cientificidade. Escrevo por uma necessidade imperiosa de… escrever; de registrar o pensamento no papel, num desnudar-se que permite, acima de tudo, a percepção dos meus próprios limites e incompreensões sobre o que escrevo. Não trago também pretensões de inovação e novidade, tão pouco disponho da chave interpretativa que, ao fim e ao cabo, elucidará tudo a nossa volta.

Seja como for, não me agrada, em especial, a leitura do quadro brasileiro atual como fruto de um erro político-eleitoral a ser debitado na conta do eleitor desinformado, agora transformado em vítima de sua própria alienação. Não acho também que a conta deva ser entregue ao avanço das religiões neopentecostais em meio à uma cínica exploração da fé popular como impulsionadora de interesses privados, por vezes até confessados. Também não me parece válido pensar a conjuntura atual como decorrência direta do golpe (branco, mas golpe!) de 2016. Na contramão de tais posições, penso, todavia, que nenhum desses processos podem ser excluídos no computo final da balança.

O que quero dizer é que o que agora vivemos não resulta necessaria e exclusivamente disso, mas de processos bem mais antigos, intensos e profundos que, inclusive, transcendem o contexto do país. Não adianta tratar Bolsonaro como planta exótica, erva daninha a ameaçar a sanidade do jardim botânico onde se cultivam democracias exuberantes. Tomada numa escala mundial, não se pode atribuir nem mesmo pioneirismo à Bolsonaro, ou à Trump, na linha no sense neofacista; que o diga Rodrigo Duterte (Filipinas), Viktor Orbán (Hungria) ou Mateusz Morawiecki (Polônia)!

O próprio modelo econômico não mudou e, portanto, o que nos rege é ainda o velho e nefasto capitalismo, sempre lesivo, excludente, letal. Mas a sensação de que algo mudou não é de todo incorreta, já que o peso do modelo econômico parece ser hoje percebido com maior ênfase – e também com maior dor, desespero e angústia – pelas populações mundo à fora. Nada de novo também, se lembrarmos que no monumental A Era dos Extremos, Eric Hobsbawm nos mostrava com precisão que, em que pese todo avanço científico e tecnológico havido no século XX – garantindo inclusive que se produzisse quatro vezes mais alimentos do que a capacidade humana do planeta em consumi-los –, a miséria e a fome no mundo contemporâneo eram maiores que as registradas no final do século XIX. Não sem razão, o historiador inglês argumentava que o socialismo real, cheio de males e mazelas, teve ao menos o mérito de frear por um tempo a sanha capitalista no ocidente e conter um ataque mais efetivo e extorsivo à classe trabalhadora.

Sem os pesos e contrapesos da guerra fria, pelo menos a partir de 1989, a vitória do modelo capitalista deu vazão à insensibilidade e truculência neoliberal, gerando uma plêiade de paladinos que, ano a ano ressurgem cada vez mais radicais e ousados, tensionando e conspurcando as estruturas democráticas, cada vez mais frágeis e submissas. De Thatcher e Reagan aos sociopatas de plantão na América Latina e no resto do mundo, pouquíssimo tempo foi necessário para corroer o verniz civilizatório e voltarmos a cultuar, por exemplo, Hitler, o nazismo e suas políticas de exclusão física e social.

Neste momento, dois importantes livros de René Dreyfus me vêm à memória – “1964: A conquista do Estado”; e “A Internacional Capitalista” –, e mesmo que numa leitura fora de contexto, me levam a pensar que, a seu modo, ainda dão conta da compreensão dos processos contemporâneos. Embora muitos teóricos tenham advogado a tendência a supressão dos estados pela cada vez mais acentuada globalização do capital, o poder deles tem se fortalecido exatamente no reforço de sua ligação com o capitalismo, que o usa, cada vez mais, e de forma desabusada, como seu instrumento – lembrei Althusser! – de coerção e domínio. Lembrei de Dreyfus porque embora concorde que a luta de classe se expresse no interior do estado moderno e o defina de acordo com as correlações de força estabelecidas em seu interior, vejo cada vez mais essa luta como vencida pelo empresariado capitalista, que praticamente se apropriou do Estado – e ai a lembrança à Dreyfus! – para arrancar nacos significativos de uma presa que parece entorpecida, anestesiada, inerte.

Mas como entender essa vitória, ou pelo menos hegemonia?

Como bem o demonstram Steven Levitsk e Daniel Ziblatt, em Como morrem as democracias, a conquista do Estado adotou um receituário idêntico no mundo todo. Num primeiro momento, a difusão insistente e implacável pela mídia empresarial e corporativa dos valores liberais, em meio a sistemáticos ataques ao pensamento progressista e suas lideranças. Em paralelo, o atrelamento de instituições do Estado, já tradicionalmente associadas ao conservadorismo, como o judiciário e o segmento militar, em ambos os casos num processo de cooptação e mesmo de corrupção de atores de destaque nas instâncias hierarquicamente superiores. Como bem demonstrou a devassa realizada sobre o Peru do neoliberal Alberto Fujimori, juízes das cortes supremas e generais de alta patente recebiam valores expressivos – estamos falando em milhões de dólares! – não apenas do governo, mas também de corporações empresariais transnacionais. Alguém em sã consciência duvida que o mesmo esteja acontecendo em outros países?    

A meu ver, o que torna tudo isso tão perigoso é que hoje há uma articulação em linha e em escala global dos processos de avanço do pensamento conservador e/ou reacionário e por isso à lembrança do outro livro de Dreyfus, A Internacional capitalista. Todo o processo que vemos hoje no Brasil é, na verdade, global, embora deva ser enfrentado e combatido tanto em termos globais como também localmente.

O capitalismo parece ter avançado para uma nova fase, que pode ser chamada de inconsequente e sem freios, mas que prefiro chamar de sínica e sádica. Uma fase em que seus ideólogos – Chicago Boys como Paulo Guedes, mas não só estes – não sentem constrangimento ou vergonha em propor a retirada de assistência social à idosos ou à deficientes físicos, o que dirá à classe trabalhadora que eles buscam espremer ao limite, para maximizar os lucros dos 1% a quem representam? O retorno à práticas de trabalho análogas à escravidão, não apenas no Brasil, mas em toda periferia do sistema, é o indício mais claro de que escrúpulos de qualquer espécie não entram nem entrarão em causa enquanto o objetivo for a obtenção do lucro a qualquer preço.

Quero enfatizar que o momento é dramático exatamente porque orquestrado em escala planetária, em que o avanço das forças reacionárias fortalece globalmente seus pares, como uma infestação que se alastra de epicentros diversos. Na América Latina, Uruguai e Bolívia são as novas vítimas da moda Brasil, enquanto Itália, Polônia, Suíça e Áustria e mesmo a Grã-Bretânia parecem seguir o modelo já em voga na Hungria desde 2010.

Felizmente há luta e resistência, e precisamos acreditar que é possível enfrentar e vencer o fantasma do fascismo que hoje joga sombra pelo mundo. Que o exemplo da mulher indígena boliviana fique batendo sempre em nossas cabeças e corações.