História também é ação!

Colaram grau hoje, 19 de junho de 2020, alguns alunos do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas, lembrando eles de meu nome para patrono da turma. Fico agradecido, obviamente, e até um pouco surpreso com a lembrança, já que temos tantos bons professores no curso. Seja como for, fiquei feliz e, desde ontem, me veio um desejo de lhes enviar uma pequena mensagem de saudação pelo ingresso na profissão, que também escolhi décadas atrás. Esse post é para eles!

Lendo agora o rascunho vejo que a saudação, na verdade, virou desabafo. Não foi fácil escrever essas poucas linhas, principalmente porque nesse momento me vejo tomado por sensações de amargura, desencanto e desânimo, e a tradição dita que em ocasiões como essa eu lhes dirija palavras de estímulo e, certamente, mais animadoras.

José Honório Rodrigues

Então, peço licença e antecipadas desculpas para uma fala mais árida e que alguns poderão considerar como por demais desviada para o campo da política, mas é que para boa parte dos historiadores de minha geração, o historiador não é escravo do passado nem a História é ciência que se fecha em seu estudo. Nossos bons mestres do passado já haviam chamado nossa atenção para o fato de que a História é bem mais que forma de conhecimento, podendo ser também uma importante força de transformação. Daí, penso eu, o seu valor e sua relevância social, sempre proclamada e aferida.

É assim que entendo a história, como entendo também que diante do perigo que hoje nos rodeia e espreita com as armas do obscurantismo, não cabem omissões e silêncios.

Nosso mundo tem passado por mudanças confusas, complexas e muitas vezes radicais, criando rupturas profundas com o que conhecíamos, ou ao menos nos parecia ser mais familiar. É essa radicalidade, inclusive, que tem  sido a razão para que alguns pensadores da contemporaneidade busquem traduzir as mudanças em outros termos, como o fez Ulrich Beck, elegendo metamorfose como esse termo que parece trazer algum outro sentido ao que tem ocorrido a nosso redor.

Muitas dessas mudanças são preocupantes e até traumáticas, gerando para muitos de nós uma sensação contínua de estar sob ataque, com muitas de nossas práticas, ideais e valores sendo prostrados ao chão, como cadáveres insepultos de soldados destroçados numa guerra há muito perdida.

Nessa batalha que, resistentes, estamos travando já há algum tempo, a chegada, ano a ano, de um novo, e depois, de um novíssimo vírus letal, não parece sequer suplantar o medo que nos incute seu congênere e concorrente, o vírus avassalador da ignorância. Com ironia, alguém já sentenciou que “ser burro está na moda”. Não duvido!

A inacreditável cena política brasileira, algo que jamais imaginei vivenciar,  tem até mesmo deixado a impressão de que o Covid-19 nem sequer chega a ser o maior risco para a sociedade brasileira. E digo isso com pesar, desde já me solidarizando com os que tiveram entes queridos vitimados por ele.

Quando, no início de 2016 me vi em situação semelhante a de hoje, de ser lembrados pela turma de formandos em História, lembro de ter feito para eles uma fala receosa e preocupada com as nuvens negras que, no horizonte, ameaçavam avançar sobre o país e sua jovem democracia. À época, comparei aquele momento com o de minha própria formatura, no hoje distante ano de 1988, mencionando que para mim, assim como para os colegas de minha geração de historiadores, o passado, embora importante – já que é com ele que dialogamos em nosso ofício – não era, em absoluto, um modelo para nós. Antes, queríamos transcendê-lo, ir além e até mesmo agir contra ele, em especial naquelas dimensões que víamos arcaicas e nocivas à construção de uma sociedade mais justa. Portanto, recusando o passado, minha geração de formandos mirava o futuro. Um futuro que, obviamente, teríamos que construir.

Herdeira da geração anterior que lutou e combateu o obscurantismo no qual o país havia sido jogado desde 1964, coube à minha geração consolidar os ditames democráticos e lutar para fazer os rumos do país convergirem na direção da criação e ampliação de direitos sociais, assim como da inclusão de minorias e segmentos que jaziam prostrados à margem do estatuto de cidadania. Desnecessário dizer que avançamos muito nessa dimensão, embora ainda houvesse (e haja!) muito mais a fazer.

Para os que ainda acalentavam o mito do progresso e do desenvolvimento econômico como uma estrada linear e contínua em direção a um futuro melhor, os anos recentes impuseram um duro golpe, demonstrando o preceito da não linearidade do devir histórico, da recorrência de recuos e de fortes retrocessos, algo que, de resto, nós historiadores sabemos de ofício. Para quem como eu, vivencia um cotidiano social prenhe de insegurança, de vociferações de ódio, de ataques à minorias, de “pós-verdades” e Fake News, e até mesmo de retorno da escravidão, a ideia de estarmos imersos no mais violento e radical déficit civilizatório faz todo sentido.

Com pesar, reconheço que meus receios de 2016 tornaram-se o pesadelo de hoje. No plano político, nunca imaginei vivenciar momentos de tanto obscurantismo, de tanta exaltação ao passado nefasto do nazifascismo, de tantos ataques à democracia e achaques às suas instituições, assim como também nunca imaginei vivenciar um ataque tão sistemático e atrozmente genocida às minorias, aos trabalhadores e trabalhadoras e aos próprios direitos humanos, para não mencionar que nunca se massacrou tanto a natureza no Brasil como hoje.

Fascismo à brasileira.

Vejam que não falei dos ataques sistemáticos que são também direcionados contra o conhecimento, seus agentes e suas instituições. Nossa universidade brasileira está literalmente sitiada e, assim como seus professores, técnicos e alunos, vêm sofrendo reiteradas desqualificações e ataques. Estes se materializam principalmente no corte de verbas e de bolsas de pesquisa, mas também enveredam pelo plano administrativo, na sanha avassaladora de fazer letra morta a autonomia universitária e, com ela, a tomada de decisões acadêmicas e a escolha democrática de seus dirigentes.

Temos tido que enfrentar ainda uma absurda e retrógrada desqualificação das Ciências Humanas e, em especial das áreas de Filosofia, da Sociologia e daquela que abraçamos, a História. Em nosso caso, particularmente, têm sido fácil perceber que nos tratam como se fossemos inimigos do país. Não é, certamente uma hostilidade gratuita, já que temos tido que enfrentar as narrativas de um revisionismo historiográfico raso e anacrônico que todos os dias escorre como chorume pelos grotões das redes sociais e agora, infelizmente, também pela ação de órgãos governamentais ligados à educação e cultura. O pior de tudo é ver e saber que tais tentativas de desqualificações são feitas por  pessoas, estas sim, desqualificadas. Desqualificadas e notoriamente ignorantes. ImpreCionante!

Bem sabemos que fazer história não é dizer qualquer coisa sobre o passado. Nosso ofício é árduo e exige o domínio de teoria e método. Exige também um compulsar extensivo e crítico de variada gama documental, na maior parte das vezes compulsada em arquivos dispersos e precários. Tudo isso para, após rigorosa análise, fazer emergir interpretações críticas do passado, sem descurar do compromisso da busca perpétua da verdade.

Nos dias atuais, temos tido ainda que combater outro combate, o da profissionalização de nossa área. Luta árdua de décadas no Congresso Nacional, até sua aprovação recente este ano. Incomodados e ressentidos, alguns que ainda pensam que podem nos demover de nossa tarefa de defesa incondicional da História e da verdade, buscam negar-nos, com vergonhoso veto, o reconhecimento formal de nosso ofício, de nosso campo profissional. Não conseguirão! E não conseguirão, sobretudo, porque aprendemos com os gigantes do pensamento – como o foi Simone de Beauvoir – que o “presente não é o passado em potência, mas momento de escolha e de ação”. História é também ação. Nossa tomada de consciência nos impele à resistência, e que faremos com veemência!

Aos bárbaros de plantão, direi apenas, alto e em bom som: Não passarão!