“Ela passou do meu lado, ‘oi amor’, eu lhe falei…”. Não! Não é nada disso. A história aqui é bem outra.
Eu a conheci há exatos 36 anos. Sentava algumas carteiras depois da minha na universidade, num momento em que meus interesses nem passavam muito por ali. Havia outros mundos, externos, que me encantavam tanto quanto me consumiam em nulidades sem que eu me apercebesse. Acho que por isso fiquei indiferente, e nem lembro se ao menos lhe olhei nos olhos alguma vez, quando nos cumprimentávamos à chegada e à partida. Nada mais que um “oi” ou um “tchau”.
Algo, no entanto, aconteceu.
Eram tempos bem diferentes dessa distopia macabra em que vivemos.
Tempos agitados da abertura política e da redemocratização do país, depois da longa noite militar que nos acometera. O futuro promissor não parecia estar tão longe; na verdade estava à nossa espera… e seria lindo. Ambos acreditávamos que mudaríamos o mundo. Mais ela do que eu, ainda tomado pela inconsciência política. Minha alienação e meu não menos deletério desinteresse acadêmico me fazia um pária e me isolava naquele ambiente hostil. E foi então que ela veio me dar a mão, abrindo um caminho entre os seus e já ali tolerando pacientemente meu vício incurável e infantil de tudo lastrear para a jocosidade, para a brincadeira, mesmo nos momentos mais sérios.
E foi bem assim, sem muito pensar ou saber, que ela se deixou ficar comigo. Mas também em mim. E até hoje.
O mundo girou velozmente nos levando numa corrente ascendente, mas também árdua. Ambos éramos pobres, ou quando muito nos víamos como uma classe média, média, seja lá o que isso pudesse significar. Para nós, nessa sociedade que adora criar matizes supostamente atenuantes, talvez significasse algo; mas para a turma do andar de cima essa distinção não fazia qualquer sentido, como ainda não faz. Não passávamos, portanto, de pobres. Pobres coitados, como a imensa maioria da população. E foi exatamente por isso que o trabalho logo se impôs. Entre e contra os estudos. Primeiro pra ela, que quando a conheci já cortava boa parte do seu minúsculo salário para ajudar no sustento da casa. Diferente dela, demorei um pouco mais a batalhar por conta própria minha sobrevivência, pendurando-me mais do que devia na estrutura familiar que se ancorava no bom salário de meu pai, que todavia se apequenava na imensidão da família.

Penoso, exaustivo, extenuante, como ela me tornei mais um operário na educação. Ser chamado de professor parecia ser outro bom diferencial, mas na prática não trabalhávamos menos horas que um operário nas fábricas e nem nosso salário era muito maior – se é que era maior! – do que o de seus trabalhadores. Mas levávamos bem os dias e, até onde consigo lembrar éramos pessoas felizes. Ou pelo menos não éramos infelizes.
No fim do mês, o dia do pagamento traduzia nosso espírito de felicidade. Momento de se deixar levar o quanto possível pelas coisas boas de uma vida dura. É claro que ele trazia, invariavelmente, os carnês, as prestações dos empréstimos e do cartão de crédito, mas também nos permitia pequenas transgressões à pobreza. Na saída do banco o caminho nos levava primeiro para a Livraria Nacional, para ali encher uma ou outra sacola de livros, sempre tiranizando com pedidos de descontos o Zé Maria, o João e o Paulo, esse sempre mais casmurro, mas gente boa também. De lá tomávamos o caminho da Fiorentina, pequena cantina da praça da Polícia. Pedíamos, invariavelmente, uma lasanha, dividida à meia e degustada lentamente. Uma taça de vinho também podia acontecer, mas era ousadia pouco frequente.
Juntos também havíamos nos apaixonado pela História e passar de alunos a professores na universidade foi como um sonho que nos projetou para bem mais longe do que podiam ir pessoas que vinham de nossa mesma condição social. Outros espaços, outras jornadas, um salário melhor. O mundo se abriu e pudemos crescer um pouco mais. Viajar, conhecer lugares, coisas, pessoas, fazer amigos. No percurso, nos tornamos pai e mãe, e a guinada em direção da construção da família se completou nos trazendo enorme felicidade.
Parceira no trabalho, na casa e na vida, foi sempre ela o esteio maior que me amparou, a alavanca suprema que me impulsionou para bem mais longe do que eu poderia ter ido se tivesse andado sem ela. Capaz de todos os esforços, de todos os sacrifícios pessoais, jamais se permitiu pensar numa estrada que não pudesse ser percorrida a dois, mesmo quando isso significasse um ganho menor para si.
Gastos pelo tempo – ainda me recuso a empregar a palavra corrente! –, também nos desgastamos um pouco, nos chateamos um pouco, silenciamos e brigamos um pouco, mas, na verdade, talvez até bem menos do que devêssemos. O fato é que gostamos um do outro, e gostamos de estar juntos.

Digo sempre que hoje nos parecemos como duas baleias que com a idade vão juntando cracas à pele que se enruga pouco a pouco, mas que seguem juntas seu destino. Não sei qual o sentido da vida. Deixo isso aos filósofos, mas sei, em minha experiência com ela, que mesmo não sendo a vida um eterno cruzeiro de prazeres, ela pode ser boa e bela, desde que se tenha a pessoa certa do lado é que se viva mansa, mas intensamente, indo sempre ao limite do que é possível conquistar.
Trinta e seis anos depois, estou assim, feliz. Com ela e, seguramente, por causa dela!
