Isso não vai acabar bem!

Saio de casa, como todos os dias e paro, como sempre, na cafeteria pelo prazer de sorver com um expresso, as notícias que chegam pelos portais onde busco informação.

O trago amargo das notícias, cada dia mais aterrorizante, não ajuda muito a superar a sensação continuada de derrota que hoje me acompanha como sombra. Apenas o sorriso gentil de Anna, a me servir o café, me faz, por alguns instantes, esquecer que o dia não começou bem.

Em férias, mas sem sair do lugar, não vou à universidade. Hora de malhar, derramar algumas gotas de suor e, sufocado pela música estridente e lisérgica da academia, tento fazer da cabeça folha em branco.

Cansado e com os quilos de sempre, preencho o final da manhã em outra cafeteria, na companhia de meu computador aberto e de um novo artigo que insiste em nunca terminar. Agora é Tina (Cristina, na verdade), outra jovem, que me atende, insistindo em me oferecer um brigadeiro, transgressão sublime e irrecusável para quem, além de diabético, acabou de sair sa academia.

Como o dia, a semana segue e agora é Andrésss (Ou Andrézzz) quem anota nosso pedido, um tambaqui assado com baiao-de-dois e uma indefectível coca-zero. Os muitos sssss ou zzzzz vieram da forma como pronunciou seu nome.

À tarde, foi a vez do chará Luís, me vender um celular, insistindo nas vantagens e nas muitas, infinitas, funcionalidades do modelo que, “por coincidência”, era exatamente o mais caro.

Por fim, no meu cotidiano gastronômico a volta pra casa só ocorreu depois que José me troxe as torradas – tô sempre transgredindo! – que pedi para acompanhar uma minestrone, pra variar, meio insípida.

Preciso esclarecer que, sempre que possível, gosto se saber o nome das pessoas por quem sou atendido em bares, restaurantes e outros lugares. E não o faço por atrevimento ou bisbilhotice, mas porque gosto de puxar conversa e também porque não quero colaborar com a coisificação dos trabalhadores, tão comum nos dias de hoje.

Ok! Mas o que tem a ver tudo isso? Por que, afinal, a referência à Anna e Tina, Andrés, Luís e José?

A questão é que, não fossem pessoas reais com as quais esbarrei e conversei nos ultimos dias, talvez se chamassem Carmen, Consuelo, Juan, Santiago ou Pablo. Mas, como disse, não são personagens saídos de novelas do SBT ou das séries da Netflix.

Todos têm em comum o fato de terem vindo de países vizinhos que atualmente passam por crise econômica e instabilidade política, e por terem chegado à cidade nos últimos três anos, fosse na condição de imigrantes, fosse na de refugiados.

Refugiados venezuelanos em Manaus

Realmente não sei como está a questão do trabalhador imigrante nas industrias e fábricas de Manaus, mas para quem usa os serviços da cidade, como eu, é fácil perceber que eles estão por toda a parte – lojas, lanchonetes, postos de gasolina, farmácias, etc. -, e cada vez em maior número.

Antes que me compreendam mal, quero deixar bem claro que vê-los assim, expraiados pelo mercado de trabalho da cidade, não me causa incômodo algum, antes pelo contrário.

É importante acolher os imigrantes e assimilá-los melhor na cidade, dando a eles condições para que consigam reconstruir suas vidas e possam prosperar entre nós, como um de nós, sem distinção.

Não posso negar, no entanto, que essa situação me causa estranhesa, numa ponta, e preocupação, na outra.

Estranhesa porque sei que o empresariado amazonense, longe está de ter sentimentos de respeito, generosidade e abnegação para com os trabalhadores e, em especial, para os trabalhadores estrangeitos, ainda mais quando estes, não sendo ingleses, franceses ou norte-americanos, trazem a inconfundível marca de seu – nosso tambem! – terceiromundismo, pra usar uma expressão do passado.

Não é generosidade, é ganancia; não é consciência, mas a total falta dela!

É, na verdade, o mais visível legado de Bolsonaro e Paulo Guedes para os trabalhadores que, em boa medida, o elegeram: a precarização extrema, cínica, sem filtro.

Nestas novas relações de trabalho, nada de carteira assinada, contratos de trabalho, limites maximos de horas ou mínimos de salários. Neste mundo torpe e mesquinho, mas “paradisíaco” do patronato bolsonarista, não há negociação, discussão, nem mimimi, como eles dizem. A regra é apenas uma, invariável, impositiva: pegar ou largar!

E quem, afinal, em sã consciência, aceitaria trabalhar nessas condições, a não ser as pessoas que perambulam pela cidade como párias, sendo hostilizados e desprezados por todos?

Acompanhados pela fome e, por vezes, pela dor de ver seus filhos e companheiros(as) na miséria e indigência; agredidos e maltratados por bandidos, marginais e até mesmo pela policia que is devia proteger, é o refugiado estrangeiro, venezuelano, haitiano ou outro, que aceita, que aquiesce, embora com a clara consciência que que estão sendo brutalmente espoliados.

O pior é que, infelizmente, tais práticas não têm ficado no plano exclusivo do patronato empresarial. Por exemplo, todos sabem na cidade que centenas de mulheres venezuelanas são todos os dias recrutadas por donas de casa para fazer faxina em troca de valores que são 50, 40 ou mesmo 30% do cobrado normalmente por uma diarista local.

O mal, portanto, não está apenas lá fora, nos outros; mas dentro de nossas casas, nas práticas privadas das pessoas que se projetam pelas redes sociais como cristãs, limpinhas e de bem, como se costuma dizer.

É certo que para quem está nas ruas, ao relento, desamparado e com fome, qualquer oportunidade tem que ser aproveitada. E é exatamente a consciência de que essas “oportunidades” não podem ser desprezadas pelos pobres, que tem animado os patrões – e patroas – a trocar seus trabalhadores usuais.

Pra mim, tudo isso é simplesmente nojento, pavoroso!

Vencida a questão da estranheza, fica agora o desafio de falar de minha preocupação e maior temor: a forma como todo esse processo está sendo ou vai ser percebido pelo conjunto mais amplo dos trabalhadores, e em especial por aqueles que estão sendo alijados de seus empregos tradicionais.

Temo, portanto, ver mais uma vez na história brasileira, o trabalhador estrangeiro ser apontado é perseguido como o oportunista ladrão de empregos de brasileiros injustiçados em sua própria terra.

Meu verdadeiro temor é que, mais uma vez, os estrangeiros sejam tomados como bodes expiatórios. Incapazes de enxergar seus verdadeiros algozes, os trabalhadores nacionais podem se voltar novamente contra aqueles que, como eles, são também vítimas no mesmo processo de marginalização, exclusão e espoliação a que estão submetidos.

Será muito triste ver novamente, desta vez em minha cidade, as cenas deploráveis e deprimentes de ódio e selvageria protagonizadas em Pacaraima (RR), em agosto de 2018, quando centenas de venezuelanos foram escorraçados como animais e expulsos para o outro lado da fronteira com a Venezuela.

Como no passado, os ingredientes do desastre já estão todos dentro do caldeirão preparado por Bolsonaro e Paulo Guedes e alardeados, cinicamente pela mídia empresarial como a salvação da lavoura, o único caminho possível para a saída da crise, para a tão almejada retomada do desenvolvimento e até mesmo – pasmem! – para a ampliação do emprego e da renda do trabalhador.

Como em outras tantas vezes em nossa malfadada história, temo que as coisas possam não terminar bem… principalmente para os próprios trabalhadores.

Sinceramente? Gostaria de estar errado.