Em 1975, VinĂcius de Moraes compĂ´s, em parceria com Toquinho, uma de suas mais belas canções, ao menos do meu ponto de vista. A mĂşsica contava a tragĂ©dia da vida solitária de “um homem chamado Alfredo”. Era um homem bom, diz a canção, alĂ©m de pacato e cordial.
Por meio do relato do suicĂdio de seu fictĂcio vizinho, VinĂcios nos leva a pensar no sentido da vida; de uma vida que parece nĂŁo ter sido vivida para si, mas para satisfação dos outros, da famĂlia e do meio social em que vive, sob suas regras.

Sem se permitir um ato transgressor, Alfredo definha em solidão à ponto de decidir entregar-se à Thanatos, levando o bichano, seu único companheiro. Quem o via pela rua, disse uma vez o poeta, jamais imaginaria o que se passava em sua cabeça, muito menos que fosse um suicida.
Mas deixemos isso de lado, até porque lembrei dessa bela/trágica melodia por algo muito mais prosaico e banal: O meu vizinho do lado.
Como na música, meu vizinho do lado é um homem bom, cordial (nada com Sérgio Buarque aqui!), gentil e afável. Com ele há anos troco algumas palavras no estacionamento ou pelos corredores do prédio. Bom dia, boa tarde, como vai? Era o que nos falávamos sempre; da mesma forma que sempre nos dávamos respostas amenas, ditas com um sorriso no rosto, como fazem os que cultivam os amigos e as amizades.
Preciso confessar: não sei o nome dele; ou melhor, não lembro; mas sei que ele também não lembra do meu. Pouco importa agora; esse é um detalhe dispensável e que não influi em nada na relação efémera que mantemos.
Hoje, com as mĂŁos apinhadas de compras, paramos Ă porta, eu e Luiza, procurando as chaves para abri-la. Foi entĂŁo que o vimos; estava de saĂda de seu apartamento, e esse nos pareceu um momento propĂcio para que lhe mandássemos mais um “como vai?”
Simpático, nos respondeu sorrindo; estava bem, tudo tranquilo. No entanto, as máscaras em nossos rostos abriram para ele a oportunidade de esticar um pouco mais a conversa. Nos disse então que suas irmãs trabalham em hospitais e lidam diretamente com esse quadro adverso. Segundo ele, foram infectadas, mas ficaram bem, sem sentir nada de mais sério.
Quanto mais avançavam seus comentários sobre a pandemia mais eu percebia que ali na minha frente se desvelava de forma cruenta o pensamento sinistro de um vizinho suicida. NĂŁo era como Alfredo, que decidiu imolar-se sozinho, sem incomodar ninguĂ©m, alĂ©m de si e seu gato. Meu vizinho sem nome defende, no fundo, algo bem mais amplo; defende o suicĂdio coletivo da nação.
AtĂ´nito, ouvimos que nĂŁo há gravidade alguma na situação e que tudo nĂŁo passa de uma jogada polĂtica para tirar um presidente honesto do poder.

Aprendemos, a contragosto, sobre o mirabolante complĂ´ chinĂŞs, já que o governo daquele paĂs seria o responsável pela produção consciente de um vĂrus letal, por espalhá-lo propositalmente visando destruir as economias ocidentais e derrotar os Estados Unidos. Mais ainda, soubemos que os chineses guardaram para si, secretamente, a vacina que fez com que os nĂşmeros de mortes daquele paĂs tenham sido tĂŁo baixos.
Calado ouvimos e calados ficamos, em nome dos constrangimento que querĂamos evitar nos futuros encontros no estacionamento e corredor do prĂ©dio. Mas sei que ele percebeu nossa profunda contrariedade e espanto.
Entrei em casa depressivo, em primeiro lugar por ver uma pessoa tĂŁo prĂłxima e cordial, alguĂ©m cuja imagem me parecia tĂŁo distante do bolsomĂnio raivoso que sempre vejo nas redes sociais, desvelar um discurso tĂŁo irracional quanto vociferante. Depois, por saber que meu vizinho nĂŁo deixa de ser um bom exemplo de como parte de nossa população tem se radicalizado numa ideologia baseada na desinformação massiva e na diuturna disseminação do Ăłdio.
Nem mesmo os 140 sepultamentos ocorridos na cidade anteontem (27/04/2020) e os outros 140 de ontem (28/04/2020) foram impedimentos para repetisse pra nĂłs, com uma convicção de quem já ganhou um Nobel de medicina, o que ele prĂłprio ouviu de seu “lĂder supremo”; que tudo que se tem hoje nĂŁo passa mesmo de uma “gripezinha” e que essas mortes sĂŁo normais, sempre ocorrem.

Agora durmo preocupado, ciente de que um dos maiores perigos que enfrentamos atualmente mora ao lado.
