Era 10 de Julho e eu acabara de embarcar para Paris, naquela que seria minha primeira viagem para fora de Manaus. Havia casado alguns dias antes, em 29 de maio de 1989 e, portanto, foi em meio à mais modesta lua-de-mel que se tem notícia que embarquei para a cidade dos sonhos de todos os recém-casados do planeta. Como podem ter imaginado, fui só! Aquele foi um ano pra lá de especial; a França vinha se estruturando há uma década para comemorar nele o Bicentenário da Revolução Francesa. Eu era, então, um simples estudante tentando finalizar a graduação em História e dando aulas em escolas particulares para me sustentar. Maria Luiza, que fora minha colega de curso e agora tornara-se minha esposa transitava pela mesma via pesada e inglória da docência no ensino médio estatal.



Um pouco de pavulagem
No final do ano anterior, 1988, achei por bem cometer uma ousadia: inscrever-me num concurso de monografias promovido pelo Governo Francês através da Aliança Francesa em mais de 20 países, premiando cinco concorrentes em cada um deles. O tema proposto, “Revolução Francesa, ontem e hoje”, me pareceu instigante, em especial para alguém que, como eu, trilhara recentemente pelo estudo historiográfico daquele movimento. Não consigo lembrar por que cargas d’água eu me lançara durante a finalização do curso no estudo de em tema como aquele. Meu palpite mais forte é que a motivação tenha sido a própria proximidade do Bicentenário e a aquisição e leitura de algum livro sobre o tema, dos muitos que começaram a aparecer no mercado editorial brasileiro. É certo que alguns clássicos já habitavam nossas bibliotecas, mas não necessariamente eram franceses. Era o caso, por exemplo, de “A Era das Revoluções“, de Hobsbawm. Mas também li autores franceses, dentre os quais Soboul, Lefebvre, Furet, Vovelle e Alice Gerard. Este ultimo livro, modesto em tamanho, me fascinou por demonstrar com clareza como a própria produção histórica podia se tornar um objeto historiográfico. Fiquei tão fascinado com essa perspectiva que, alguns anos depois levei uma proposta desse tipo como projeto para a Pós-graduação… Mas essa é uma outra história, que, quem sabe, poderá um dia rechear alguma outra crônica com algumas achegas historiográficas.
Venci o certame organizado pelo governo francês no Brasil e foi aí que me veio como prêmio uma viagem de 20 dias para a França, para ali acompanhar as celebrações do Bicentenário da Revolução. Mais da metade desse tempo seria passado em Paris. Nunca algo me empolgara tanto. Aquela fora, sem dúvida, minha primeira conquista, e foi indescritível para um aluno obscuro e tímido perceber um certo sentimento de admiração e orgulho no rosto de alguns de meus professores. Com o prêmio veio também o dilema: deixar Luiza sozinha num pequeno apartamento que alugávamos na Cachoeirinha, próximo a casa de meus pais, apenas onze dias após termos nos casado. Não tínhamos dinheiro e, portanto, não havia a menor chance de viajarmos juntos. Oportunizar o prêmio para uma lua de mel em Paris implicaria em bancar as caríssimas hospedagens locais, inflacionadas ainda mais pela proximidade do evento. Aquilo simplesmente estava fora do nosso alcance.
– “Acho que eu não vou”, disse pra ela ainda em meio à euforia. “Não acho correto te deixar só nesse momento”. Ela não sabia, mas eu estava dissimulando o fato de que o que me angustiava era o medo do meu provincianismo, o medo de nunca ter viajado, de nunca ter ficado sozinho na vida, o medo de não falar uma só palavra em francês… Minto! cheguei a fazer um ou outro semestre na Aliança Francesa, mas de forma tão desleixada que isso não mudava em nada a situação do meu desespero. Luiza, no entanto, me atalhou de pronto e chegou quase a me ameaçar para que eu viajasse, sob pena de acabar ali mesmo o casamento. Desde aquele instante, começara a ficar claro que Luiza já tinha total autoridade sobre mim: “Não tens o que discutir. Você vai!”, sentenciou ela. Aquiesci e engoli o medo. A família ajeitou o resto na resolução dos meus dramas. Em um ou dois dias já haviam me municiado de agasalhos e roupas de frio (que eu simplesmente não tinha), assim como de alguns francos abençoados. Graça, irmã em melhor condição financeira que os demais foi fundamental nesse quesito. Estava tudo resolvido: eu iria à Paris!





Embarquei e naquele momento começou a saga mais esquisita da minha vida. Puta merda! Pensem num Jeca em Paris?! Pois é; era como me sentia! Caminhava pelas ruas olhando abismado pra aquele mundo opulento e fascinante e, por isso mesmo tão radicalmente diferente do meu. Nunca distribui tanto pardon e merci na vida. Povinho besta o parisiense, que não pode ver um aparvalhado na rua que já vai logo esbarrando de cara amarrada… Não quero ser ingrato para com os franceses, mas gentileza e banho foram as duas coisas que logo percebi que faltavam aos meus anfitriões. O fato é que eu estava assustado. Todo aquele furdunço, todo aquele ambiente em tudo tão diverso do meu, do meu chão social, da minha condição precária… Tudo aquilo me gerava intranquilidade. Além do mais, o fato era que até aquela ocasião eu nunca tinha parado pra pensar o quanto o mundo poderia ser tão maior do que aquele meu canto de província.


Seja como for, as coisas pareciam andar bem por lá, porque o governo francês não poupou recursos conosco. Com gente de todos os países, nós, os brasileiros fazíamos um grupo de cinco historiadores e cinco artistas plásticos. Para começar, fomos hospedados no acolhedor e charmoso albergue da juventude, na rue du Fauconnier, em pleno Marais, a apenas uma quadra da Pont Marie, que liga aquele bairro à Île Saint-Louis. Nada, portanto, mais chic, como gritava em mim o caboclo pávulo que habita todo bom nortista. Os amigos brasileiros do grupo ajudaram bastante a suavizar as apreensões iniciais da viagem. Conviver com eles, foi transformar não apenas o albergue, mas toda Paris numa espécie de festa rave.
Ao caminhar pela cidade tudo era arrebatamento, espanto, deslumbre… e alguns dias depois ainda haveria Versalhes, aquele caldeirão impressionante de história, luxo e ostentação. Para quem até então não entendera a Revolução, aqueles gigantescos salões dourados, repletos de veludo, lustres, quadros e o esbanjamento irresponsável explicavam parte da história, senão toda ela. Lembro de ter me sentido minúsculo, lembrando minha origem e minha condição precária. Não tenho vergonha do meu passado repleto de carências, até porque, até onde lembro, fui uma criança e um adolescente feliz. Mas a tomada de consciência de toda a distância entre meu mundo e aquele onde fui parar, era assustadora.
A hora do vexame
Nas manhãs e tardes de muita caminhada, a Torre Eiffel, os jardins, os palácios e castelos, e principalmente os museus me transportavam para uma espécie de sonho, a um só tempo indescritível e entorpecedor. Mas então chegavam as noites e tudo mudava. Todos nós, os companheiros de viagem, sabíamos que Paris fervilhava lá fora, mas a exaustão nos impelia à cama e ao descanso. Jantávamos e corríamos para a fila já formada à frente do telefone do albergue, onde se podia ouvir a maior confusão de línguas e sotaques estranhos. Ligava para a casa dos meus pais, não sem perder um tempo enorme para tentar ser entendido pela telefonista que fazia a ligação (os mais jovens não tem a menor ideia do que eu estou falando).
Quando alguém me atendia em casa era o momento de falar o mais rápido possível de quanto eu estava gostando de tudo, dos passeios que tinha feito, do que havia conhecido. Depois o telefone era passado pra Luiza. Nós não tínhamos telefone logo que casamos e ela andava duas quadras, do nosso apartamento para a casa dos meus pais, para esperar lá a hora combinada de falar comigo. E era aí que eu simplesmente desabava! Chorava e soluçava de forma incontrolável, e lembro bem da cara assustada de Cláudia e de Alexandra (àquela, paulista, esta cearense), minhas companheiras de viagem e de albergue. Simplesmente não conseguiam entender o que se passava, logo comigo, o mais velho do grupo, chorando ali na frente de todos feito criança. Eu próprio me vi surpreso com a força daquelas emoções. E foi ali, naquele primeiro afastamento que descobri o quanto eu amava Luiza, e o quanto ela me fazia falta. Senti pela primeira vez a dor lancinante provocada pela distância do ser amado. Sei que do outro lado da linha ela também desabava, mas me incentivava a seguir aproveitando a viagem e dizia pelo menos 100 vezes que me amava e que estava com saudade, mas voltava a dizer que eu devia aproveitar tudo que pudesse. De minha parte eu só conseguia chorar e dizer outras 100 vezes que a amava e que sentia a falta dela. Eu estava no centro do mundo com todas as emissoras de TV voltadas para lá, mas tudo que me vinha à cabeça era meu modesto mundo do outro lado do Atlântico, com a família, amigos e, claro, com Luiza. Era ali que residia a felicidade, e eu queria logo voltar.








Andando pelas ruas de Paris sempre dava um jeito de comprar alguns postais em alguma banca de revista da cidade e passar em uma agência dos correios para postá-los. Escrevia com meus garranchos (tão vergonhosos quanto meu choro) as palavras que me vinham à mente. Mas o que dizer para Luiza, afinal? Depois de muito meditar entendi que todo aquele sentimento cabia numa única frase que vi num postal alusivo ao mundo romântico e glamourizado parisiense. “Tu me manques”! Era isso: Sinto tua falta!



Tudo parecia estar contido naquelas ínfimas palavras, até mesmo a dor e a angústia. Mandei esse postal no dia 17 de Julho, três dias depois, portanto da enorme festa que acompanhei na Praça da Bastilha, com uma garrafa de champanhe na mão, a poucos metros do palco onde se apresentavam as Mulatas do Sargenteli. Sim, teve samba e muita música brasileira no 14 de Julho mais importante daquele século. E já ali o sangue latino, negro e indígena fazia a diferença. Éramos dez brasileiros em meio a uma multidão de franceses felizes, mas atônitos com aquela molecada que sabia dançar no ritmo frenético daquelas músicas. Lembro que olhavam pra nós e sorriam, um pouco admirados. Mas isso também já é outra história que um dia posso vir a contar. Voltemos à Luiza e ao postal! Pois bem. Perdoem-me a pouca criatividade, mas foi com um trecho da música do Lobão (quando ele ainda parecia ter algum neurônio na cabeça!) que comecei a escrita: “Tá tudo cinza sem você, tá tão vazio…”. E aquilo era tão verdadeiro, que todo o postal era como um lamento: Nele escrevi:
“É incrível como uma cidade tão bela pode ficar tão monótona quando eu penso em ti. E eu não paro de pensar… Desde o dia em que cheguei nada é tão presente quanto tua ausência. Do teu, Luís. Paris*, 17/7/89”.
Ao pé do cartão elucidei o asterisco, fazendo-o acompanhar de uma sugestiva palavra: “infelizmente”! Pois é. Talvez eu fosse a única pessoa sã naquela cidade que estava se sentindo infeliz. Não preciso dizer que desculpo de todo Paris por aquela sensação, ela de fato se esforçou por me agradar e cativar, mas é preciso dizer que perdeu a batalha. Estava a quase dez dias ali e a tristeza já tinha tomando conta de mim como se fosse um câncer me corroendo por dentro. Era como estar a um passo do desespero; e ele, enfim, chegou.
Ah, L’amour!
No dia seguinte, 18 de Julho, me transferi, como programado, para Annais, uma cidadezinha em pleno Vale do Loire, mais ao centro da França. A área toda era encantadora, cheia de castelos e paisagens rurais de tirar o fôlego. Há uns três ou quatro quilômetros de Annais morava Carrolle (na foto ao lado, com a mãe), minha jovem e bela anfitriã francesa que estudava português e que ainda não completara 20 anos. Era filha de queijeiros e foi toda cortesia e amabilidade comigo. Mostrou-me a propriedade, a cura dos queijos que o pai fabricava, apresentou a família e no fim da noite ainda me apresentou todo o seu talento de acordionista.

Naquela noite deitei exausto no quarto que a família generosamente cedera pra mim, mas não consegui dormir. Em silêncio, inundei o travesseiro com as lágrimas que insistiam em cair. Não pude falar com Luiza naquele dia; não havia telefone na casa de Carrolle e o orelhão mais próximo ficava em Annais, à 4 km. Tudo era belo naquele lugar e tudo parecia maravilhoso. Apenas os dois “copinhos de iogurte” da usina nuclear de Belleville, que despontavam no horizonte por trás da casa, destoavam de todo aquele idílio. Felizmente consegui abstrair de todo o incômodo vizinho radioativo. Fizemos mil passeios no dia seguinte, visitando castelos e museus, mas eu já chegara ao limite da exasperação. Foi quando tomei a decisão extremada de pedir socorro. Foi nessa hora que entrou na história o Bessa. Nosso querido professor e incentivador José Ribamar Bessa Freire fora um dos que ficaram felizes com meu feito. Bessa estava em Paris na ocasião. Ganhara de presente da esposa uma passagem para reencontrar a cidade que o acolhera no exílio e que fazia algum tempo que não visitava. Seu aniversário era por aqueles dias (acho que 16 ou 17, não lembro bem). Quando fiz escala no Rio, ele e professora Consuelo Alfaya foram me encontrar no Galeão, ocasião que ele me passou os contatos telefônicos de onde estaria em Paris e se colocou à disposição caso houvesse qualquer emergência. A foto abaixo, cujo contexto é o da formatura de dois amigos de graduação que posteriormente viraram colegas professores, Luiz Bitton e Hideraldo Costa (falecido), é exatamente daquele momento.

Bessa chegou em Paris um ou dois dias depois de mim e nos encontramos por lá, indo com ele visitar a amiga amazonense Marilza Mello Foucher em seu apartamento em Versalhes. Figura extraordinária, Marilza era e é jornalista e escritora de mão cheia, até hoje bastante atuante. Foi de uma generosidade sem par. Seja como for, foi ao Bessa que recorri no momento do desespero, quando me encontrava em Annais. Falei para Carrolle que precisava resolver um problema, mas omiti do que se tratava.
Na mesma manhã percorremos a estrada que ligava a casa à cidadezinha nos arredores. Parecia um daqueles caminhos de conto de fadas, com folhagens multicores nas árvores que, vergadas, formavam inúmeros túneis sombreados e aprazíveis. Do orelhão de Annais liguei para o Bessa em Paris, dizendo que queria voltar o mais rápido possível para Manaus e perguntando se ele podia me ajudar nisso. Quem já teve a oportunidade de conhecer o Ribamar Bessa sabe que ele é daquele tipo de gente especial que jamais largaria a mão dos seus, e, de fato, ele foi imensamente solidário e generoso comigo. Me pediu para ligar novamente dali a algumas horas. Quando retornei a ligação, tudo já estava acertado: horários de saída do trem em Annais e de sua chegada na Gare du Nort, onde Bessa combinou me aguardar. também providenciou uma acomodação nos fundos da loja de turismo de uma sua amiga peruana, e até mesmo marcou a ida na agência da Air France, onde também trabalhava uma brasileira ali radicada e que ele conhecia. Foi essa bela senhora que, ao me receber, me perguntou com certa curiosidade o porquê daquele desejo de abreviar em dez dias a estadia na França, exatamente, lembrou ela, num momento em que gente do mundo todo estava lutando pra conseguir vagas nos voos e nos hotéis de Paris. Eu lhe disse a verdade: que casara há poucos dias e que estava sofrendo com saudades de Maria Luiza, minha esposa. Lembro que ela abriu um sorriso e disse apenas “Ah, l’amour!, l’amour”. e em dois toques eu já estava com os bilhetes na mão para voltar pra casa na manhã do dia seguinte.
Deixei Paris para trás com plena convicção de que tinha feito o que devia ter sido feito. Lembrei que Chico Buarque quando escrevera Samba de Orly, dera razão aos conterrâneos que fugiam do frio. Certamente teria dado maior razão à mim, que fugia de lá por amor. No entanto, foi só retornar à Manaus para que meus sentimentos e minha decisão virassem alvo de chacota. “Tu é é leso!”, me diziam os amigos zombeteiros. Talvez fosse mesmo, como todos os que nascem na barelândia, mas era em mim que o sapato apertara e a dor doía. Além do mais, carregava a certeza de que nada estava irremediavelmente perdido para Paris. Ela ainda haveria de ter outra chance de me receber novamente e desta vez eu estaria devidamente acompanhado por quem de direito. Lembro que, por anos, eu e Luiza brincávamos que não podíamos morrer sem antes termos ido juntos à Paris.
Primavera
Era o mês de Abril de 2015 quando embarquei com Luiza para aquela viagem que sempre tivemos na cabeça. Mais que uma necessidade, fazê-la era para nós obrigatório. Depois de uns dias em Portugal chegamos à Paris no auge da primavera, algo que para nossa realidade climática de Manaus não tem nem razão de ser. Em Paris o clima fez sua parte: temperaturas amenas, flores e mais flores, uma ou outra chuva rápida e dias ensolarados. Nada poderia ter sido melhor, e de fato não foi. Fizemos ali a viagem dos nossos sonhos. Luiza era só felicidade e consigo lembrar de cada desejo que ela ali realizou, como, por exemplo, a ida ao Flore de suas leituras beauvoaristas, se é que esse termo existe. Por uma semana Paris foi a parceira ideal para os nossos desejos. Agora sim, ela nos ganhara de todo, e era como se la vie en rose (na voz de Madaleine Perroux, preferida de Luiza, com perdão de Piaf) tivesse se tornado o fundo musical de nossas vidas naqueles dias de encantamento. A cidade estava exuberante e acho que se fez muito mais linda naqueles dias por saber que Luiza estaria por lá. Não fosse pelo péssimo fotógrafo que sou, e pela (acertada) decisão de viver as experiências sensoriais, muito mais que apenas registrá-las à toda hora em fotografias, teria hoje facilidade maior de esboçar aqui todas aquelas sensações extraordinárias. Mas, como costuma acontecer, vasculhando as gavetas – ou HD’s, pra ser mais preciso – sempre se encontra algo que dialoga com os nossos desejos..







Entre o nosso casamento, em 29 de maio de 1989, e a viagem conjunta de 2015, muitas águas passaram por baixo da ponte de nossas vidas. Já em 1990, duas grandes vitórias nos marcaram, sendo a primeira o nascimento do Luís Felipe. A outra foi a aprovação no concurso para a docência no Departamento de História da UFAM. Bem mais para Luiza que para mim, nosso cotidiano foi integralmente perpassado por livros, fraldas e mamadeiras e preparação e ministração de aulas. Depois vieram as pós-graduações em São Paulo e com elas as pesquisas, as orientações, as publicações, para não falar da burocracia e do famigerado Lattes. Felipe seguia sendo a alegria da casa e a alma ao redor da qual girava toda nossa vida. Tinha lá seus momentos de mau-humor, como por exemplo, na hora de levantar pra ir pra escola, mas quem nunca… Nem tudo foi sempre um mar de rosas. Ao contrário, aqueles foram tempos difíceis, sobrecarregados de afazeres e de boletos que tinham o incrível dom de se multiplicarem como Gremlins molhados. E estes, é claro, traziam as preocupações e as noites de insônia..Mas foram também tempos de alegrias, de contentamentos e de realizações, e isso se deveu unicamente à consciência de que a felicidade era algo que tinha de ser constantemente arrancada de toda aquela estrutura espoliativa e opressiva à qual estávamos submetidos. Neste particular, minha memória me leva a alguns lugares e temporalidades em que eu, Luiza e Felipe recheamos nossas vidas de incessantes afetos.




O tempo de um sentimento
Os últimos anos de Luiza foram a um só tempo, felizes e dramáticos, Como todos nesse país, passamos pelas catástrofes da Covid-19 e do Bolsonarismo no poder. Ainda hoje fico tentando entender como nós, enquanto sociedade, pudemos cometer aquela escolha deletéria e catastrófica. O fato é que considero impossível que tenhamos saído daquele quadro sem alguma sequela que nos ia minando por dentro, nem sempre de forma silenciosa. Dou exemplos: O medo de que a desastrosa reforma da previdência derrogasse direitos e conquistas dos trabalhadores levaram os advogados consultados por Luiza a sugerir que ela se aposentasse o quanto antes, no momento em que ela preparava sua passagem para Professora Titular, o que, sem dúvida, coroaria sua já brilhante carreira acadêmica. Ter seguido aquele conselho alarmista foi motivo de um grande e doloroso arrependimento para ela. No plano da saúde, o corpo também começou a dar sinais de fragilidade em 2023, acarretando uma sequência infinita de visita à médicos e hospitais e pilhas intermináveis de receitas, remédios e exames.
O quanto os problemas de saúde da Luiza podem ter sido decorrentes de alguma sequela da Covid, que pegamos já depois de vacinados e com reações brandas, nunca pudemos saber ao certo, embora ambos guardássemos essa suspeita. Foi por força dessas ocorrências, inclusive, que eu e ela, de comum acordo, decidimos encerrar nossas carreiras na UFAM, em Novembro de 2023. O intrigante para nós é que todos aqueles problemas de saúde, que à época imaginávamos serem um dia superados pelos cuidados e tratamentos médicos que ela passou a ser submetida ocorreram com o início de uma vida mais leve, sem as nefastas pressões do trabalho. Passamos a sair para passeios e idas infinitas às cafeterias, onde podíamos pedir uma água, um expresso e abrir um livro, enquanto os ponteiros do relógios davam inúmeras voltas sem que percebêssemos. Lembro de dizer para ela, e também de ouvir dela, entre um e outro cafezinho, o quanto a nossa vida mudara e estava mais prazeirosa. A literatura havia chegado forte pra nós naquele momento e era simplesmente delicioso enfileirar leituras e comentários sobre nossas impressões. Também havíamos nos mudado de endereço depois do leve AVC sofrido por Luiza em 23 de novembro de 2023, indo para uma área mais central e para um apartamento que, embora pequeno, nos dava um pouco mais de mobilidade, conforto e comodidade.




Tentamos também nos tornar habituês de academia, mas fracassamos feio nesse quesito. Por mais que ela desejasse, o menor esforço físico a levava ao mal-estar e à necessidade de passar horas em repouso com as pernas para cima. Aquele foi também um momento delicado, em que ao amor que sentíamos um pelo outro veio se juntar o cuidado. Havia muita vida pulsando dentro do peito da minha companheira, um desejo infinito de viver ainda tantas coisas dos antigos desejos e todas as coisas novas que estavam por vir. Mas eu sabia que existia também o medo. Não à toa Luiza passou a me pedir que segurasse sua mão na hora de dormir, o que fizemos todas as noites no último ano e meio. Mesmo com todo acompanhamento médico ela se sentia insegura e entregar sua mão para mim na hora do sono era para ela como uma garantia de que nada lhe aconteceria. Mas eu não pude salvá-la, assim como todo o amor e o afeto que ela recebia de mim, do Felipe, dos familiares e dos amigos e amigas, também não foram capazes de impedir a sua dolorosa partida no último 6 de Fevereiro, de longe o dia mais triste de toda minha vida. Ela se foi um pouco antes de completarmos 37 anos de casados (na data de hoje, 29 de maio de 2026). Estes, somados aos quatro anos de um namoro muito apegado, compuseram mais de quatro décadas de um convívio extraordinário. Impossível não sofrer, impossível esquecer. Nossas vidas seguirão, como seria do desejo dela. Felipe, como me diz sempre, tem dentro de si o desejo de honrar a memória da mãe que tanto o amou e que tanto ama, e eu não me afastarei jamais da memória desse amor que estruturou minha vida e me (re)formou como ser humano. Para onde quer que minha vida me levar – e estejam seguros que há um desejo de vida que pulsa em mim -, eu estarei com ela no coração. Depois daquela primeira crise em Paris, há trinta e sete anos atrás, estou imerso novamente naquele sentimento que presentifica a dolorosa ausência. Tu me manques, Luiza.
Sinto Sua Falta
Tu me manques…
Sinto sua falta e não há nada a ser feito
Tu me manques y’a rien à faire
Sinto sua falta e isso não é mistério..
tu me manques pas de mystère
Por que este coração ferido
pourquoi ce coeur fracturé
não consegue se desamarrar?
ne peut se détacher
Tua imagem está gravada…
Ton image est gravée
Meu sonho levanta vôo…
mon rêve s’est envolé
Num relicário de sol,
dans un écrin de soleil
minha vida desmorona como a chuva… é tudo igual!
ma vie ou la pluie c’est pareil
Sinto sua falta, ainda acredito nisso
Tu me manques j’y crois encore
Sinto sua falta, o amor é forte
tu me manques l’amour est fort
Como eu poderia aceitar
comment pourrais-je accepter
que o céu um dia caísse?
que le ciel vienne à tomber?
Sinto sua falta, mas isso passará
Tu me manques, ça va passer
Sinto sua falta, e estou dilacerado
tu me manques, j’suis déchirée.
Eu encontrei somente estas palavras
Je n’trouve que ces mots-là
pra poder te dizer “Eu te amo” cem vezes…
pour te dire je t’aime 100 fois.
Todos os dias aumentaram este restinho de amor,
Tout les jours s’agrandit ce petit bout d’amour
Aquele que eu havia construído por você, dia após dia
celui qu’j’avais construit pour toi jour après jour
Eu queria ter te dito as palavras que não são ditas,
j’aurais voulu te dire les mots qu’on ne dit pas
Aprender a escrevê-las, te cantá-las bem baixinho…
apprendre à les écrire te les chanter tout bas.
Sinto sua falta tarde da noite
Tu me manques trop tard le soir
Sinto sua falta, e tenho esperança
Tu me manques, je garde espoir
Eu sei que alguém la no alto nos conduziu esta noite
Je sais que quelqu’un là-haut, nous à porter ce soir
E nos deixou o tempo. O tempo de um sentimento…
nous à laisser le temps, le temps d’un sentiment
Mesmo que a vida, frequentemente, faz meu coração bater a contra-tempo…
Même si la vie souvent fait battre mon coeur à contre-temps.
Sinto sua falta, você entendeu?
Tu me manques, as-tu compris?
Sinto sua falta, sinto frio a noite
Tu me manques, j’ai froid la nuit.
Montreal ou Paris, onde estás ? Muito longe daqui?
Montréal ou Paris, où es-tu, trop loin d’ici ?
Sinto sua falta, eu já te disse
Tu me manques je te l’ai dit
Sinto sua falta e aguardo aos gritos…
Tu me manques j’attends les cris
Eu encontrei somente estas palavras pra poder te dizer “Eu te amo” cem vezes…
Je ne trouve que ces mots-là pour te dire je t’aime 100 fois
Sinto sua falta…
Tu me manques…
